20.3.08
o dia que sucede a noite
O Garoto Enxaqueca não dorme. Ele ferve de calor e gira de um lado para o outro da cama e se recorda de quando passava as férias na casa da avó, nos cafundós do interior de Minas Gerais, onde a noite era fresca e havia os sapos, os grilos e eventualmente o barulho da chuva e assim, então, dormia-se em paz e sossegado. Mas não adianta, essas lembranças não trazem o sono. O Garoto Enxaqueca abre de leve os olhos: o quarto ainda está escuro. E quente. E com as coisas todas que habitam o quarto lá, em seus devidos lugares, na penumbra. Ele se vira para o lado da parede.A insônia que acomete o Garoto Enxaqueca é crônica. Há períodos em que ela se manifesta de maneira mais intensa. Como agora. Há quase uma semana ele vê a pequena noite de dentro de seu quarto escorrer lentamente até acabar e dar lugar ao dia que chega lá de fora. De olhos fechados, tentando ficar imóvel, forçando o pensamento em coisas que sirvam de acalanto, o Garoto Enxaqueca se pergunta se ainda é meia-noite ou se já serão quatro da madrugada. Abre os olhos novamente, sempre na quantidade necessária para apenas entrever os primeiros sinais da claridade que se insinua.Lembra daquela vez em que viajou para aquela praia no litoral do Ceará com um grupo de amigos para passar o reveillon. Durante o dia, caminhava-se por entre imponentes dunas que escorriam para a extensa praia levemente banhada pela maré baixa. O sol reluzia nas piscinas que se formavam na areia. Ao entardecer, a brisa refrescante trazia consigo a escuridão, maculada apenas pelas estrelas que a lua nova deixava aparecer. Vira para o outro lado. Enxuga o suor da testa com o lençol. Joga longe o lençol. Não adianta, o sono não vem.Agora o Garoto Enxaqueca fecha os olhos com força, ele não quer ver que o dia não tarda a clarear. Mas ele sabe, ele percebe, ele já está acostumado. Os galos começaram a cantar ao longe e o trinar dos passarinhos também já se faz ouvir ao redor. Em seguida são os cachorros que começam a latir e o barulho do trânsito que se intensifica. São os malditos avisos de que mais uma noite se foi e que daqui a pouco o Garoto Enxaqueca terá que se levantar da cama e ir para o trabalho. Se ele pudesse, matava todos os galos, os passarinhos, os cachorros e o trânsito. A idéia de que não tarda amanhecer aumenta a tensão, a necessidade de dormir é quase um desespero, o Garoto Enxaqueca sabe que a insônia está minando sua saúde e sua sanidade mental e é aí, nesse momento, que o sol desponta invadindo o quarto. A claridade soa como um decreto: já era, mais uma noite acordado, não há mais tempo para o sono. O Garoto Enxaqueca, então, se conforma. E dorme. Pesadamente, profundamente, mas só até que o despertador toque, cerca de apenas meia hora depois. Aí ele se levanta, vê sua cara corrompida no espelho do banheiro, escova os dentes e sai de casa.
mulheres de viagens
Lembrei por esses dias de uma garota que conheci há cerca de dez anos, em uma viagem de ônibus que fiz a Petrolina, em companhia de meu amigo Ibrahim. Viajávamos por conta de um trabalho — não vem ao caso dizer qual — que exigiria de nós uma estadia de pelo menos uma semana naquela região. Digo isso porque não ficaríamos apenas em Petrolina: teríamos que percorrer um bom trecho do sertão pernambucano para realizar o tal trabalho. Para tanto, alugamos um carro um dia após nossa chegada à cidade.À noite, fomos, eu e Ibrahim, tomar uma cerveja em um bar obscuro no entorno de uma singela e aconchegante praça. No dia seguinte, logo cedo, partiríamos com o carro alugado para percorrer um trecho que passava por Terra Nova, Parnamirim e Ouricuri. Foi nesse bar, cujo nome não me lembro, que conheci a tal garota. Salvo engano, se chamava Elisa. Ela em tudo destoava daquela cidade e de sua gente. Seus modos, sua roupa, seu jeito de falar, nada tinham a ver com o provincianismo simplório da população de Petrolina.Foi decerto Elisa a responsável por nossa aproximação. Começamos a conversar e não tardou muito para saber que era estudante, havia nascido naquela cidade, mas há muitos anos morava na metrópole de onde eu e Ibrahim acabávamos de chegar. Ela falou de lugares que costumava freqüentar e achei estranho já não termos nos conhecido em algum deles antes. Falamos da viagem que faríamos a partir do dia seguinte e Elisa sem hesitação disse que gostaria de ir junto, se não houvesse problema. Foi. Devo dizer que no bar ela já tinha me despertado interesse. Era muito bonita e inteligente e destrambelhada.Durante a pequena viagem, meu interesse só fez crescer. Talvez pelo fato de eu sempre ter sido consideravelmente tímido ou por ter faltado oportunidade adequada — coisa típica dos tímidos: ficar esperando a oportunidade adequada —, nada, além de conversas muito agradáveis, aconteceu durante todo o período em que estivemos circulando pelo sertão de Pernambuco. Aliás, aconteceu, mas foi entre Ibrahim e Elisa, no último dia de nosso périplo agreste, quando estávamos em Ibimiri, já no caminho de volta para Petrolina.Digo que me lembrei dela porque quando estive, semana passada, na kitchenette de Karina, uma garota de programa de quem, de tanto recorrer aos favores, me tornei amigo, encontrei lá uma moça muito parecida com Elisa. Não conversamos. Ela estava de saída e fiquei na dúvida se era ou não. Karina me disse que era sua amiga, que também vivia do meretrício e que se chamava Penélope — mas não tinha certeza, podia ser nome de guerra.
23.2.08
a vida como ela costuma ser
O filho único que Alcides e Deusdete tinham morreu atropelado dois dias depois de completar nove anos de idade. A tragédia aconteceu em dezembro de 1988. Lá se vão 18 anos. Nem é preciso falar da dor aguda que os pais sentiram nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram. Dizem que o tempo cura todas as feridas. Alcides e Deusdete não pensam dessa maneira. Eles consideram que, para algumas feridas, o tempo funciona, no máximo, como paliativo. Mas a vida de quem fica segue e eles seguiram com a deles.Deusdete e Alcides são casados há 29 anos e moram, desde que resolveram somar alegrias e principalmente dividir tristezas, no bairro Santo Antônio, numa casa singela mas espaçosa, dotada, inclusive, de um quintal com horta e um cômodo de fundos, com entrada independente, que eles alugam a preço módico. Deusdete é enfermeira, trabalhou a vida inteira na profissão, em vários hospitais, unidades de pronto atendimento, postos de saúde e farmácias da cidade. Hoje está aposentada, cuida da casa e da horta com especial zelo, cultiva uma amizade sincera com duas ou três vizinhas e mantém uma relação cordial com os demais moradores da rua e com os comerciantes do bairro.Alcides foi, durante muitos anos, almoxarife de uma empresa de embalagens industriais. Foi demitido e arrumou emprego, na mesma função, em uma fábrica de coturnos. Hoje ele trabalha como chofer de táxi, fica rodando o dia inteiro, das seis da manhã às seis ou sete da noite, dependendo da demanda do dia. Ele e a mulher gostam de ver novela juntos, a das oito. De resto, quando estão ambos em casa, conversam pouco um com o outro, não porque se desgostem, mas por simples falta de assunto. Apesar dos anos de convívio e do monumental abalo causado pela morte do filho, eles mantêm o afeto mútuo. Até vão ao supermercado fazer as compras juntos, de vez em quando.Hoje Deusdete resolveu preparar uma moqueca de piramutaba para o jantar. Ela é boa cozinheira e vez por outra, para sair da rotina ou mesmo para se entreter, resolve fugir do trivial. Foi à peixaria e ao armazém no meio da tarde, comprou os ingredientes e agora, com a televisão ligada num canal qualquer, descasca as batatas. O movimento do dia foi fraco para Alcides, pegou apenas quatro passageiros. Um deles, de nome Eustáquio, muito conversador, disse que estava procurando um quarto para morar. Alcides achou bom, o cômodo de fundos de sua casa está desocupado. Ele disse isso para o rapaz e passou o contato. Agora, fim de tarde, ele só pensa na moqueca que Deusdete disse que ia preparar. Alcides e Deusdete têm um poodle de estimação.
jk e o passado
A única notícia que tive de algum membro da minha família desde que desapareci para sempre diz respeito ao tio Pitoco. Nas minhas andanças pela madrugada da cidade baixa conheci um dono de boteco chamado Sinfrônio, com quem, depois de algum tempo, criei intimidade suficiente para trocar confidências. Foi em uma de nossas conversas de alvorecer que ele me disse morar no 24º andar do edifício JK e ser vizinho de um cara meio esquisito, conversador e que, ao que parecia, vivia do lenocínio. “Chama-se Pitoco”, me disse o Sinfrônio.
Fiquei sabendo, posteriormente, acumulando outras informações, que se tratava de fato do meu tio Pitoco. Talvez pelo desejo de estabelecer algum vínculo com a vida que eu tinha deixado para trás, aquela que eu optara por não viver, ou pelo inusitado de saber que o tio Pitoco havia se tornado rufião, fui movido a uma ligeira investigação, pela qual obtive informações mais detalhadas. Descobri que ele havia abandonado a mulher e os filhos e caído na vida. Não sei o motivo. Pelos meus cálculos, isso aconteceu mais de um ano depois da última vez que o vi. Como ele chegou ao convívio com as meretrizes, os larápios, os pequenos traficantes e trapaceiros sobre os quais Sinfrônio me falava, devo admitir que também não sei. Mas tomei ciência que ele está envolvido com a raia miúda. Também eventuais pequenos trambiques, vigarices e falcatruas em geral garantem o sustento dele e o aluguel das kitchenettes em que ele hospeda as garotas. Descobri que tio Pitoco costuma ficar peregrinando pelos bares da praça Raul Soares, onde arruma os clientes, os quais, depois de alguns telefonemas, encaminha para as kitchenettes. Resolvi encontrá-lo. Cheguei no JK no final da tarde, subi pelo elevador até o 20º andar. Não sabia o que falar com ele, qual seria sua reação, estava inseguro quanto ao encontro e por isso desci quatro andares abaixo do dele. Depois de percorrer os corredores do imponente e estranho edifício cheguei à porta do tio Pitoco. Toquei campainha e fui atendido por uma garota que, logo deduzi, era uma das suas. Perguntei pelo Pitoco e ela me disse que ele não estava. Hesitei defronte à porta, pensando que talvez fosse melhor abandonar a idéia de reencontrá-lo, que o melhor fosse simplesmente me virar e ir embora. Mas a garota perguntou se poderia ser útil em alguma coisa. Não precisei pensar muito para responder que sim. E ela foi, por módicos R$ 50.
Fiquei sabendo, posteriormente, acumulando outras informações, que se tratava de fato do meu tio Pitoco. Talvez pelo desejo de estabelecer algum vínculo com a vida que eu tinha deixado para trás, aquela que eu optara por não viver, ou pelo inusitado de saber que o tio Pitoco havia se tornado rufião, fui movido a uma ligeira investigação, pela qual obtive informações mais detalhadas. Descobri que ele havia abandonado a mulher e os filhos e caído na vida. Não sei o motivo. Pelos meus cálculos, isso aconteceu mais de um ano depois da última vez que o vi. Como ele chegou ao convívio com as meretrizes, os larápios, os pequenos traficantes e trapaceiros sobre os quais Sinfrônio me falava, devo admitir que também não sei. Mas tomei ciência que ele está envolvido com a raia miúda. Também eventuais pequenos trambiques, vigarices e falcatruas em geral garantem o sustento dele e o aluguel das kitchenettes em que ele hospeda as garotas. Descobri que tio Pitoco costuma ficar peregrinando pelos bares da praça Raul Soares, onde arruma os clientes, os quais, depois de alguns telefonemas, encaminha para as kitchenettes. Resolvi encontrá-lo. Cheguei no JK no final da tarde, subi pelo elevador até o 20º andar. Não sabia o que falar com ele, qual seria sua reação, estava inseguro quanto ao encontro e por isso desci quatro andares abaixo do dele. Depois de percorrer os corredores do imponente e estranho edifício cheguei à porta do tio Pitoco. Toquei campainha e fui atendido por uma garota que, logo deduzi, era uma das suas. Perguntei pelo Pitoco e ela me disse que ele não estava. Hesitei defronte à porta, pensando que talvez fosse melhor abandonar a idéia de reencontrá-lo, que o melhor fosse simplesmente me virar e ir embora. Mas a garota perguntou se poderia ser útil em alguma coisa. Não precisei pensar muito para responder que sim. E ela foi, por módicos R$ 50.
fila dupla
Onde: na rua Cecílio Matarazzo, próximo à esquina com avenida do Contorno, mais precisamente em frente ao restaurante Finíssimo. Sargento Washington: claro minha senhora, a gente vai resolver tudo. Madame Zuleika: o meu marido é dono de uma rede de panificadoras, tem muita influência na Assembléia Legislativa e é amigo do coronel Leônidas. Garoto Enxaqueca: minha senhora, eu não estou preocupado com a batida em si, mas com a civilidade, o crescimento descontrolado das cidades, as relações interpessoais, a desigualdade social, enfim, estou preocupado com as implicações de se parar em fila dupla numa rua em curva só porque a senhora dispõe de um manobrista, graças ao seu dinheiro, dinheiro que a senhora tem e eu não, que te permite vir a um restaurante chique, com manobrista, e parar em fila dupla. Manobrista: êpa, não me põe nessa história não. Madame Zuleika: o carro novo, meu marido me deu como presente de 25 anos de casamento, a gente tem seguro, mas eu não vou acionar, esse moleque aí é que vai ter que pagar tudo. Sargento Washington: eu já peguei os dados dele, agora preciso que a senhora me passe os seus. Madame Zuleika: Zuleika Feliciana von Praukner Ladeira, meu marido é amigo do coronel Leônidas, é dono de uma rede de panificadoras e tem muita influência na Assembléia Legislativa. Sargento Washington: minha senhora, os documentos do carro e a carteira de motorista, por favor. Garoto Enxaqueca: veja bem, não é proibido parar em fila dupla? Ela pára, eu bato na traseira do carro dela, mas ela está certa e eu estou errado! Ela parou em fila dupla, o que é proibido pela lei, mas parou porque tem o manobrista para tirar, é uma coisa que o dinheiro dela compra, então o dinheiro dela compra o que é certo e o que é errado, inclusive sob o ponto de vista da Lei? Madame Zuleika: está na cara que esse delinquentezinho fumou maconha! Seu guarda, o senhor deve prendê-lo imediatamente. Sargento Washington: não creio que seja necessário. Madame Zuleika: imediatamente, eu disse. Sargento Washington, sem paciência: vou precisar que vocês aguardem um pouco para assinar a ocorrência. Garoto Enxaqueca: suponha, caro Washington, a seguinte utopia, todo mundo rico, todo mundo com carro bacana, podendo parar na porta de restaurante grã-fino com manobrista, em fila dupla, o que será que ia acontecer? Parar em fila dupla ia deixar de ser proibido pela legislação de trânsito? Mas se estamos falando de um lugar e um tempo imaginário onde todo mundo ia ser rico e ter carro bacana, como é que iam ficar os outros ricos de carro bacana que estivessem transitando pelas ruas inevitavelmente mais estreitas e engarrafadas por causa das filas duplas, eles não iam se incomodar? E a Lei, ia ficar entre a cruz e a espada, hein!? Madame Zuleika: seu guarda, esse moleque está sofismando.
crônica de uma noite feliz
Ronnie Bustamante, vulgo Samantha Brick, e Bernardo Celidônio, a quem também chamam Shirley Ass, são duas drags queens que trabalham na boate Minotaurus. Certa feita, com as noites livres e os dividendos de um final de semana de muito trabalho no bolso, resolveram tomar ácido lisérgico e ir a um restaurante grã-fino. Montadas. No primeiro que tentaram entrar foram barradas. No segundo, com o argumento de que eram atores, famosos, apareciam nas revistas de TV e tinham feito uma ponta na novela, tudo mentira, conseguiram driblar a sisudez do engravatado na portaria e entraram risonhas, brilhantes, purpurinadas, falando alto, extravagantes e expansivas.
Pediram champanha, as entradas, o prato principal, mas declinaram da sobremesa porque, no fundo, no fundo, estavam se divertindo menos do que o esperado com o constrangimento e a mudez absoluta que tomou conta do lugar desde que haviam chegado. Dedo em riste apontando acintosamente para alguns respeitáveis e embolorados casais que, abandonando a comida pela metade, levantavam de suas mesas e saíam resmungando baixinho e balançando a cabeça em sinal de reprovação, Samantha e Shirley eram as únicas a quebrar o silêncio falando desmedidamente alto. Pagaram a conta deixando o troco e partiram jogando confete e serpentina. O rumo tomado foi o boteco do Sinfrônio, ali na praça da Estação, na cidade baixa, perto de onde moram. Chegaram lá fogosas como haviam saído do restaurante grã-fino. Algumas pessoas no recinto cumprimentaram as duas, outras continuaram fazendo o que estavam fazendo, sem se importar com a presença delas, e umas poucas demonstraram certo incômodo. Samantha e Shirley pediram cerveja e croquete, pensando nas rimas obscenas que o acepipe sugere.
Tocava Agnaldo Rayol na jukebox, a madrugava avançava em direção à manhã, uma pequena barata hesitava próximo à estufa e Sinfrônio conversava com seu amigo Pitoco, que bebia recostado ao balcão. Samantha e Shirley contavam piadas indecentes para um grupo de velhos conhecidos que gargalhavam à larga. Expansivas, extravagantes, purpurinadas, brilhantes, risonhas, falando alto e alucinadas, mas um tanto exauridas, saíram do bar, atravessaram a praça com seus chafarizes lusco-fusco da alvorada iminente e, deixando atrás de si um rastro de confete e serpentina, foram se entregar ao justo repouso.
Pediram champanha, as entradas, o prato principal, mas declinaram da sobremesa porque, no fundo, no fundo, estavam se divertindo menos do que o esperado com o constrangimento e a mudez absoluta que tomou conta do lugar desde que haviam chegado. Dedo em riste apontando acintosamente para alguns respeitáveis e embolorados casais que, abandonando a comida pela metade, levantavam de suas mesas e saíam resmungando baixinho e balançando a cabeça em sinal de reprovação, Samantha e Shirley eram as únicas a quebrar o silêncio falando desmedidamente alto. Pagaram a conta deixando o troco e partiram jogando confete e serpentina. O rumo tomado foi o boteco do Sinfrônio, ali na praça da Estação, na cidade baixa, perto de onde moram. Chegaram lá fogosas como haviam saído do restaurante grã-fino. Algumas pessoas no recinto cumprimentaram as duas, outras continuaram fazendo o que estavam fazendo, sem se importar com a presença delas, e umas poucas demonstraram certo incômodo. Samantha e Shirley pediram cerveja e croquete, pensando nas rimas obscenas que o acepipe sugere.
Tocava Agnaldo Rayol na jukebox, a madrugava avançava em direção à manhã, uma pequena barata hesitava próximo à estufa e Sinfrônio conversava com seu amigo Pitoco, que bebia recostado ao balcão. Samantha e Shirley contavam piadas indecentes para um grupo de velhos conhecidos que gargalhavam à larga. Expansivas, extravagantes, purpurinadas, brilhantes, risonhas, falando alto e alucinadas, mas um tanto exauridas, saíram do bar, atravessaram a praça com seus chafarizes lusco-fusco da alvorada iminente e, deixando atrás de si um rastro de confete e serpentina, foram se entregar ao justo repouso.
28.1.08
Uma fábula
Já reparou que ninguém repara nos garis? Eles estão entre nós, diligentes no seu serviço, mas são invisíveis. Ninguém os cumprimenta, ninguém dá atenção à função que executam, ninguém se preocupa com eles e ninguém se incomoda com eles. Sinésio, que há um par de décadas trabalha como gari em um bairro de alta classe média da região Centro-Sul da metrópole, teve, de súbito, a clarividência: a invisibilidade, afinal de contas, deve servir para alguma coisa!
Certa feita, quando executava seu trabalho em frente à mansão de número 1.472 da rua Sinval de Sá, que cruza o referido bairro onde está alocado, viu sair de lá um senhor grisalho, gordo, que, decerto, era o morador. Ou um dos. Sinésio, que estava próximo ao portão, aproximou-se, pediu licença – obviamente sem obter qualquer tipo de resposta – e entrou enquanto o gordo grisalho, mantendo o portão aberto, dava algumas recomendações ao jardineiro, que também era ligeiramente invisível.
Abismado com a imponência do jardim, da piscina e da casa logo adiante, o gari seguiu pelo caminho de pedras-são-tomé dispostas pelo gramado. O casal de rotweillers que estava na varando não latiu quando ele chegou perto e, empurrando a porta da entrada, que estava apenas cerrada, entrou. Na ampla sala, duas crianças jogavam videogame e a faxineira espanava a cristaleira. Sinésio fez apenas um leve e encabulado meneio de cabeça, a título de cumprimento ou apresentação. Ninguém retribuiu. As crianças continuaram entretidas em frente à TV e a faxineira continuou espanando.
Ele encostou a vassoura em um canto, sentou-se no sofá, macio que só, e tirou as botinas que judiavam de seus calos. Ficou cerca de meia hora ali, apenas observando. Viu outras duas empregadas passarem pela sala, ambas meio invisíveis, e também a mãe das crianças – supostamente esposa e filhos do gordo grisalho -, que foi cobrar que largassem o jogo para fazer o dever de casa. Como ninguém o via, aproveitou para tirar uma meleca do nariz e limpar no confortável sofá. Levantou-se, saiu andando pela casa, foi ao banheiro, esvaziou a bexiga e seguiu para cozinha.
Lá havia outra empregada, melhor vestida e um pouco menos invisível que as outras três. Mais à vontade, dirigiu-se a ela com um “ôpa!, e aí, tudo bem? Dia quente, não?” sem esperar resposta, que, aliás, não obteve. A mulher – devia ser a governanta – continuou com os seus afazeres. Sinésio abriu a geladeira, viu algumas cervejas de marcas que ele nunca ouvira falar, vinhos, vários acepipes e, no freezer, gordas peças de carne. Sorriso matreiro no rosto, pensou consigo: “vou chamar o pessoal pra um churrasco aqui nesse próximo final de semana”.
Certa feita, quando executava seu trabalho em frente à mansão de número 1.472 da rua Sinval de Sá, que cruza o referido bairro onde está alocado, viu sair de lá um senhor grisalho, gordo, que, decerto, era o morador. Ou um dos. Sinésio, que estava próximo ao portão, aproximou-se, pediu licença – obviamente sem obter qualquer tipo de resposta – e entrou enquanto o gordo grisalho, mantendo o portão aberto, dava algumas recomendações ao jardineiro, que também era ligeiramente invisível.
Abismado com a imponência do jardim, da piscina e da casa logo adiante, o gari seguiu pelo caminho de pedras-são-tomé dispostas pelo gramado. O casal de rotweillers que estava na varando não latiu quando ele chegou perto e, empurrando a porta da entrada, que estava apenas cerrada, entrou. Na ampla sala, duas crianças jogavam videogame e a faxineira espanava a cristaleira. Sinésio fez apenas um leve e encabulado meneio de cabeça, a título de cumprimento ou apresentação. Ninguém retribuiu. As crianças continuaram entretidas em frente à TV e a faxineira continuou espanando.
Ele encostou a vassoura em um canto, sentou-se no sofá, macio que só, e tirou as botinas que judiavam de seus calos. Ficou cerca de meia hora ali, apenas observando. Viu outras duas empregadas passarem pela sala, ambas meio invisíveis, e também a mãe das crianças – supostamente esposa e filhos do gordo grisalho -, que foi cobrar que largassem o jogo para fazer o dever de casa. Como ninguém o via, aproveitou para tirar uma meleca do nariz e limpar no confortável sofá. Levantou-se, saiu andando pela casa, foi ao banheiro, esvaziou a bexiga e seguiu para cozinha.
Lá havia outra empregada, melhor vestida e um pouco menos invisível que as outras três. Mais à vontade, dirigiu-se a ela com um “ôpa!, e aí, tudo bem? Dia quente, não?” sem esperar resposta, que, aliás, não obteve. A mulher – devia ser a governanta – continuou com os seus afazeres. Sinésio abriu a geladeira, viu algumas cervejas de marcas que ele nunca ouvira falar, vinhos, vários acepipes e, no freezer, gordas peças de carne. Sorriso matreiro no rosto, pensou consigo: “vou chamar o pessoal pra um churrasco aqui nesse próximo final de semana”.
Expurgo
Já contei como tudo aconteceu, mas não me importo em repetir. Na verdade, os fatos que aqui retomo estão descritos, com mais minúcias do que o espaço que aqui temos permite, no prólogo da obra intitulada “Histórias Curtas e Violentas” – livro breve porém denso que eu e meus amigos W. Merije e H. Trotta editamos há cerca de cinco anos e cujo conteúdo e origem permanecem, mesmo para nós, que assumimos a paternidade da cria bastarda, uma incógnita. Está no prólogo porque julgamos necessário esclarecer que a obra em questão não é de nossa autoria, a despeito de nossos nomes grafados na capa.
Pois bem, o que está ali escrito diz respeito àquele que talvez seja o responsável pela prosa insidiosa que justifica o título “História Curtas e Violentas”. Ele se chama Eustáquio Ladeira, nós o conhecemos na época da faculdade. A impressão que ainda hoje guardo do dito é de que se tratava de um mentiroso compulsivo, incapaz de dizer uma única verdade a respeito de si, do que fazia, de onde morava ou do que quer que fosse. Era um sujeito intenso por natureza, fervilhava de idéias que poderiam mudar o mundo e, sobretudo, era um ficcionista hábil.
Taquinho largou o curso no quarto ano, às vésperas de se formar, dizendo que ia se mudar para a Europa. Não há como dizer com certeza se foi mesmo, mas o fato é que não retornou no início do ano letivo subseqüente. Ficamos sem notícias dele por dez anos até que, a poucos meses da virada do milênio, numa noite em que eu estava petiscando com um grupo de amigos num dos bares do saguão de entrada do edifício Arcângelo Malleta, eis que surge o homem. Muito mais magro, de cabeça raspada, eufórico como se estivesse drogado, Taquinho desceu pela escada que leva à sobreloja e me cumprimentou efusivamente.
Ele não quis se sentar na mesa em que eu estava, mas conversamos cerca de meia hora. Taquinho me contou que esteve na Inglaterra, morou um tempo na Dinamarca e passara os últimos anos na Índia. Nesse percurso, escreveu um livro de pequenos contos que não chegou a ser publicado. Estava com os originais debaixo do braço e insistiu para que eu lesse. Assenti, dizendo ante sua visível pressa que poderíamos nos encontrar no dia seguinte, quando eu lhe devolveria os manuscritos. Nunca mais voltei a ver ou ter notícias de Taquinho. Penso até se não sonhei sua presença naquela noite. Não sonhei. A prova são aqueles textos maledicentes, diabólicos, cruéis, perniciosos e devassos, os quais, pela necessidade de expurgo, resolvemos, eu, W. Merije e H. Trotta, publicar sob o título de “Histórias Curtas e Violentas.”
Pois bem, o que está ali escrito diz respeito àquele que talvez seja o responsável pela prosa insidiosa que justifica o título “História Curtas e Violentas”. Ele se chama Eustáquio Ladeira, nós o conhecemos na época da faculdade. A impressão que ainda hoje guardo do dito é de que se tratava de um mentiroso compulsivo, incapaz de dizer uma única verdade a respeito de si, do que fazia, de onde morava ou do que quer que fosse. Era um sujeito intenso por natureza, fervilhava de idéias que poderiam mudar o mundo e, sobretudo, era um ficcionista hábil.
Taquinho largou o curso no quarto ano, às vésperas de se formar, dizendo que ia se mudar para a Europa. Não há como dizer com certeza se foi mesmo, mas o fato é que não retornou no início do ano letivo subseqüente. Ficamos sem notícias dele por dez anos até que, a poucos meses da virada do milênio, numa noite em que eu estava petiscando com um grupo de amigos num dos bares do saguão de entrada do edifício Arcângelo Malleta, eis que surge o homem. Muito mais magro, de cabeça raspada, eufórico como se estivesse drogado, Taquinho desceu pela escada que leva à sobreloja e me cumprimentou efusivamente.
Ele não quis se sentar na mesa em que eu estava, mas conversamos cerca de meia hora. Taquinho me contou que esteve na Inglaterra, morou um tempo na Dinamarca e passara os últimos anos na Índia. Nesse percurso, escreveu um livro de pequenos contos que não chegou a ser publicado. Estava com os originais debaixo do braço e insistiu para que eu lesse. Assenti, dizendo ante sua visível pressa que poderíamos nos encontrar no dia seguinte, quando eu lhe devolveria os manuscritos. Nunca mais voltei a ver ou ter notícias de Taquinho. Penso até se não sonhei sua presença naquela noite. Não sonhei. A prova são aqueles textos maledicentes, diabólicos, cruéis, perniciosos e devassos, os quais, pela necessidade de expurgo, resolvemos, eu, W. Merije e H. Trotta, publicar sob o título de “Histórias Curtas e Violentas.”
Então é natal
O ar condicionado é a única coisa boa que existe, a única coisa que salva. De resto, isso aqui é o inferno na terra. Imagine só sem o ar condicionado! Com essa roupa! Sei lá que diabo de tecido é esse, percal, popelina, gabardina, não entendo bulhufas disso, mas sei que é quente pra caralho. Vermelho ainda por cima. Fico lembrando de anos passados, quando eu ainda ficava ali na porta do Atacadão dos Tecidos, na esquina da avenida Paraná com rua Carijós. Ali era foda, o dia inteiro em pé, com essa roupa, essa barba postiça, bigode postiço, toca, tudo vermelho, de cambraia, fustão, viscose, sei lá, debaixo do sol escaldante, suando em bicas, aquele mundo de gente indo e vindo e eu ali, com a obrigação de ficar rindo, pulando, brincando, achando tudo gracinha, tudo lindinho.
Aqui no shopping é menos mal, tem o ar condicionado. Os cínicos dirão que eu subi na vida. E o mal do cinismo é que ele não dá margem para discordância nem ponderação. Tudo bem, aqui é melhor, mas é ruim do mesmo jeito. As coisas que a gente passa! As coisas a que a gente se submete para pagar as contas! Ontem mesmo um pirralho branquelo e sardento que veio sentar no meu colo berrou: “Eu não acredito em você” e me lascou uma mordida, mordida mesmo, pra valer, na orelha. A vontade que deu foi de estrangular o infeliz, mas como é que faz se o papai, a mamãe, o titio, a vovó estão ali, sorridentes, achando tudo gracinha, tudo lindinho, tirando foto do filhinho no colo do Papai Noel. O pirralho não acredita em Papai Noel? Tudo bem, eu também não acredito no pirralho, aliás, não acredito em criança nenhuma. Essa história de que elas são páginas em branco, de que nascem puras e de que a personalidade se desenha conforme a criação e o convívio com outras pessoas, isso é balela. Todo mundo já nasce com seu quociente de maldade dentro e as crianças são particularmente más porque não têm pudor, podem ser explicitamente más porque são crianças, purinhas, coitadinhas, inocentes. Eu sei disso. Eu sinto isso. Ano após ano, vai chegando o Natal e aí pronto, eu tenho que conviver com as crianças, brincar com elas, fazer bilu-bilu nelas. Já perdi a conta de quantas vieram se sentar no meu colo pra mamãe tirar foto. A maioria não gosta, vem e senta porque a mamãe quer tirar foto do filhinho no colo do Papai Noel. Tudo bem, acho que dou conta de chegar no dia 25 sem esganar um desses pirralhos. O ar condicionado ajuda.
Aqui no shopping é menos mal, tem o ar condicionado. Os cínicos dirão que eu subi na vida. E o mal do cinismo é que ele não dá margem para discordância nem ponderação. Tudo bem, aqui é melhor, mas é ruim do mesmo jeito. As coisas que a gente passa! As coisas a que a gente se submete para pagar as contas! Ontem mesmo um pirralho branquelo e sardento que veio sentar no meu colo berrou: “Eu não acredito em você” e me lascou uma mordida, mordida mesmo, pra valer, na orelha. A vontade que deu foi de estrangular o infeliz, mas como é que faz se o papai, a mamãe, o titio, a vovó estão ali, sorridentes, achando tudo gracinha, tudo lindinho, tirando foto do filhinho no colo do Papai Noel. O pirralho não acredita em Papai Noel? Tudo bem, eu também não acredito no pirralho, aliás, não acredito em criança nenhuma. Essa história de que elas são páginas em branco, de que nascem puras e de que a personalidade se desenha conforme a criação e o convívio com outras pessoas, isso é balela. Todo mundo já nasce com seu quociente de maldade dentro e as crianças são particularmente más porque não têm pudor, podem ser explicitamente más porque são crianças, purinhas, coitadinhas, inocentes. Eu sei disso. Eu sinto isso. Ano após ano, vai chegando o Natal e aí pronto, eu tenho que conviver com as crianças, brincar com elas, fazer bilu-bilu nelas. Já perdi a conta de quantas vieram se sentar no meu colo pra mamãe tirar foto. A maioria não gosta, vem e senta porque a mamãe quer tirar foto do filhinho no colo do Papai Noel. Tudo bem, acho que dou conta de chegar no dia 25 sem esganar um desses pirralhos. O ar condicionado ajuda.
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