12.11.07

criança de domingo

CRIANÇA DE DOMINGO

Recordo, não sem um certo travo de remorso, que naquele dia despertei particularmente mal-humorado, talvez porque o doberman do vizinho latisse ou porque a noite fora povoada de pesadelos ou talvez simplesmente porque os domingos me deprimiam. Se bem que, até onde me lembro, acordar de “ovo virado”, como tia Euzébia gostava de falar, me era habitual. Eu estava com 12 anos, tinha chegado à capital havia três, para estudar, e morava com ela no bairro Sagrada Família, em uma vila onde também habitavam, em barracos distintos mas com um pátio interno em comum, a tia Eulália, solteira como Euzébia, e o tio Pitoco (nunca soube o verdadeiro nome dele), sua mulher e dois primos insuportáveis, ambos mais velhos do que eu.

Todos gostavam muito de mim, faziam o possível para que eu me sentisse em casa, acolhido, até mesmo os primos. Eu é que não gostava deles. Pois bem, como soia acontecer nas manhãs dominicais, fomos todos à missa, na Igreja de São Judas Tadeu, o que ao longo dos três últimos anos eu fizera contrariado. Não gostava de ter que me sentar e me levantar conforme pedisse o padre. Também achava triste o fato de ninguém nunca, em nenhuma missa a que eu tivesse ido, ter se oposto ao pedido. Imaginava alguém calmamente dizendo: “olha, seu padre, o senhor não leva a mal não, mas agora eu prefiro ficar de pé mesmo”. E completar com um: “e tem mais, discordo de tudo o que o senhor está falando”.

Naquele dia eu parecia ver com mais clareza e de modo amplificado o trivial apático das gentes. As pessoas tinham cor cinza. Não só as que repetiam amém pela manhã, mas também as que, à tarde, comiam pipoca, faziam piquenique, jogavam bola e se divertiam vendo os melancólicos animais do Jardim Zoológico, onde havíamos, digo, eles haviam, os meus parentes, com meu consentimento mudo, combinado de passear. Tudo me parecia maquiagem, mesmo a euforia barulhenta de meninos e meninas mais novos do que eu, que corriam a frente de seus pais de um lado para o outro apontando o macaquinho, o hipopótamo, o leão. Tudo cinza, os bichos, a grama, as pessoas, o céu. Recordo claramente a sensação de opacidade e também o aperto que senti no peito quando diminui o passo, deixando que tia Euzébia, tia Eulália, tio Pitoco, a mulher e os primos caminhassem entretidos mais à frente. Foi nesse domingo, em agosto de 1984, que desapareci para sempre.

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