Definitivamente a postura elegante, a candura no olhar, a pele alva, os cabelos bem tratados, o evidente acanhamento de quem se sente terrivelmente oprimida, os gestos contidos e etéreos, enfim, a figura angelical que Sílvia, sem sucesso, tentava camuflar destoava de maneira gritante do ambiente bruto, quase hostil, daquele botequim infecto plantado em plena praça da Estação, no centro baixo da cidade. Entre bêbados, larápios, prostitutas e rufiões que povoavam o lugar, ela, pequena numa mesa de canto, resplandecia contra a própria vontade. Quanto mais olhares atraía – e era inevitável que os atraísse – mais desconcertada ficava.
Mas o monumental desconforto que Sílvia aparentava por vezes se confundia com um outro tipo de inquietação, talvez ansiedade. Sílvia olhava o relógio de pulso freneticamente. Estaria ela esperando por alguém? O que poderia justificar a presença de uma mulher com aqueles ares e olhares frágeis naquele lugar que é só rudeza? Um encontro secreto? Um amor bandido, desses que só se pode cultivar na sombra? Parecia ser a hipótese mais plausível, mas também é possível que ela estivesse empenhada em algum tipo de investigação, pesquisa, um estudo antropológico quiçá. Mas não, nesse caso ela decerto estaria acompanhada, não se meteria a correr riscos sozinha.
Recostado no balcão, fumando o penúltimo Derby do maço e rabiscando um guardanapo, eu tecia lucubrações acerca das motivações de Sílvia. Fiquei, por um instante, tentado ao julgamento: tola ou destemida? Não importava. O fato curioso é que, a despeito da cobiça que pairava pesada no ar, ninguém parecia ter coragem de se aproximar dela. De alguma forma, Sílvia estava seguramente resguardada na redoma da própria inocência e fragilidade. Ela talvez não pensasse da mesma forma. Sua aflição, que era quase medo, quase tristeza, ganhava corpo.
Com evidente dificuldade, praticamente sem abrir a boca ou erguer o olhar, pediu outra garrafa de água mineral ao garçom que, saído do banheiro, esbarrou em sua mesa. Tomou apenas um copo antes de consultar o relógio mais uma vez, levantar-se e rumar até o caixa para pagar a conta, pela primeira vez na noite demonstrando desenvoltura e determinação. Ficou sobre a mesa um envelope, que julguei ser seu, mas tive a certeza que ela havia deixado para trás algo muito maior.
13.11.07
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário