28.1.08
Amar e ser amado ou bônus HCV
Sargento Washington, morador da Vila Nossa Senhora de Fátima, no Aglomerado da Serra, onde é vizinho de Dalva, por quem seus amores são: atende, doce amada, à súplica de paixão que a ti dedica meu coração. Dalva, que trabalha na padaria da esquina, ama em silêncio o senhor Ataliba, freguês do estabelecimento, e é desejada em silêncio por sua gerente, Magda: mas como, estimado Washington, se não são por ti meus suspiros, se os sentimentos que por ti nutro são de natureza diversa do amor, se não vejo em ti, exceto a farda, nada além do ombro companheiro em que sempre espero poder derramar minhas mui contidas mágoas? Sargento Washington: Mas deve haver, quiçá, alguma maneira pela qual eu possa despertar em ti o que por ti sinto, senão, que razões terei eu para seguir na peregrinação ingrata desta vida árida e sem perspectivas? Dalva: nisso tens razão, estimado Washington, perspectivas não temos, afinal, nascemos paupérrimos, carecemos de instrução, moramos na favela, somos ridiculamente mal remunerados em nossos empregos ridículos, aos quais nos agarramos com tanto afinco, e sequer somos correspondidos em nosso respectivos eflúvios amorosos. Sargento Washington: mas diz-me, então, que, pelo menos no que concerne a nós dois posso vislumbrar algum ponto de luz que me livre das tristes trevas da solidão e do abandono em que me encontro mergulhado. Dalva, pensativa: não creio, em verdade, que meu amor pelo senhor Ataliba venha um dia a ser correspondido, então, a ti digo, estimado Washington, que podem haver, para nossas míseras vidas, minha e tua, caminhos que convirjam. Sargento Washington: pelos céus! Como havemos de encontrá-los? Dalva: cedo aos teus encantos se me fizeres um favor, que não é pouco nem pequeno, pelo contrário, é um favor que demandará de ti coragem, frieza e astúcia e que, no entendimento do meu coração, terá lugar como verdadeira e definitiva prova de amor. Sargento Washington, exaltado: diga-mo qual, pois! Não hesitarei em atendê-la doce amada! Dalva, com olhar transbordando candura: desejo, querido Washington, que tire de uma vez por todas do meu caminho a perversa Magda, a gerente da padaria em que trabalho, aquela mulher que, não sei por qual misteriosa razão, insiste em me humilhar, dia após dia, me tratando como a mais vil e desprezível das mulheres. Sargento Washington: queres que dê-lhe da vida cabo? Dalva, quase tímida: penso que sim. Sargento Washington: com ou sem dor? Dalva: com.
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