Estava andando e parou para pensar, sentado no banco da praça. Pensou, vendo os pombos no repasto das migalhas, que se avestruzes voassem e existissem em bando entre nós, isso seria uma coisa inacreditável. Imagine, uma revoada de avestruzes! Pensou, como já houvera pensado outras vezes, que se Telê Santana tivesse levado Reinaldo para a Copa do Mundo de 1982, talvez a história tivesse sido outra e a seleção lograsse o título. Lembrou-se de Cecília, com quem namorou por quatro anos e a quem amou como a nenhuma outra mulher. Pensou na felicidade suprema que era estar ao lado dela e na tristeza infinita que o possuiu depois da separação.
Pensou que toda briga é estúpida e que se elas, as brigas, são cada vez mais freqüentes, seja no âmbito planetário ou na intimidade do lar, é porque talvez as pessoas estejam perdendo a capacidade do diálogo. Pensou que o tempo, como o conhecemos, é uma convenção e, assim sendo, pode ser mudado. Não pensou em como seria um novo calendário, com a organização dos dias, semanas, meses e anos completamente diferente da que hoje temos. Pensou que está devendo uma visita à tia Mercedes, que o criou e que, hoje, do alto dos seus 82 anos, vive ligando para reclamar da solidão.
Pensou, ao ver um ônibus passando, que fumar um maço de cigarros por dia não pode ser mais prejudicial do que viver em uma metrópole, onde a impressão que se tem é a de que os blocos maciços de monóxido de carbono expelidos pelos automóveis pairam na altura dos nossos narizes. Pensou em quando, pela primeira vez na vida, beijou uma garota. Não se lembra do nome, mas sim em como, com muito custo, pois a timidez sempre lhe foi madrasta, aninhou as mãos dela entre as suas. Pensou que não se faz mais rock’n’roll como antigamente: Cream, Led Zeppelin, Deep Purple, Stones, Beatles, isso sim, eram bandas de rock’n’roll.
Sabe-se lá porque, pensou no texto da peça “As Moscas”, de Sartre, e na idéia que “a liberdade é um fardo pesado demais para se carregar”. Pensou, talvez por causa das moscas, que suas fezes andavam um tanto inconsistentes – não exatamente moles, como quando se está de diarréia, mas inconsistentes. Estaria ele com algum problema intestinal? Pensou que sempre gostou mais de gatos do que de cachorro e que jamais dispensaria um picanha na brasa, ao ponto, em favor de um sorvete de creme com banana e calda de chocolate quente. Morreu ali, no banco da praça, pensando, de morte natural, anônimo.
28.1.08
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário