23.2.08
a vida como ela costuma ser
O filho único que Alcides e Deusdete tinham morreu atropelado dois dias depois de completar nove anos de idade. A tragédia aconteceu em dezembro de 1988. Lá se vão 18 anos. Nem é preciso falar da dor aguda que os pais sentiram nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram. Dizem que o tempo cura todas as feridas. Alcides e Deusdete não pensam dessa maneira. Eles consideram que, para algumas feridas, o tempo funciona, no máximo, como paliativo. Mas a vida de quem fica segue e eles seguiram com a deles.Deusdete e Alcides são casados há 29 anos e moram, desde que resolveram somar alegrias e principalmente dividir tristezas, no bairro Santo Antônio, numa casa singela mas espaçosa, dotada, inclusive, de um quintal com horta e um cômodo de fundos, com entrada independente, que eles alugam a preço módico. Deusdete é enfermeira, trabalhou a vida inteira na profissão, em vários hospitais, unidades de pronto atendimento, postos de saúde e farmácias da cidade. Hoje está aposentada, cuida da casa e da horta com especial zelo, cultiva uma amizade sincera com duas ou três vizinhas e mantém uma relação cordial com os demais moradores da rua e com os comerciantes do bairro.Alcides foi, durante muitos anos, almoxarife de uma empresa de embalagens industriais. Foi demitido e arrumou emprego, na mesma função, em uma fábrica de coturnos. Hoje ele trabalha como chofer de táxi, fica rodando o dia inteiro, das seis da manhã às seis ou sete da noite, dependendo da demanda do dia. Ele e a mulher gostam de ver novela juntos, a das oito. De resto, quando estão ambos em casa, conversam pouco um com o outro, não porque se desgostem, mas por simples falta de assunto. Apesar dos anos de convívio e do monumental abalo causado pela morte do filho, eles mantêm o afeto mútuo. Até vão ao supermercado fazer as compras juntos, de vez em quando.Hoje Deusdete resolveu preparar uma moqueca de piramutaba para o jantar. Ela é boa cozinheira e vez por outra, para sair da rotina ou mesmo para se entreter, resolve fugir do trivial. Foi à peixaria e ao armazém no meio da tarde, comprou os ingredientes e agora, com a televisão ligada num canal qualquer, descasca as batatas. O movimento do dia foi fraco para Alcides, pegou apenas quatro passageiros. Um deles, de nome Eustáquio, muito conversador, disse que estava procurando um quarto para morar. Alcides achou bom, o cômodo de fundos de sua casa está desocupado. Ele disse isso para o rapaz e passou o contato. Agora, fim de tarde, ele só pensa na moqueca que Deusdete disse que ia preparar. Alcides e Deusdete têm um poodle de estimação.
jk e o passado
A única notícia que tive de algum membro da minha família desde que desapareci para sempre diz respeito ao tio Pitoco. Nas minhas andanças pela madrugada da cidade baixa conheci um dono de boteco chamado Sinfrônio, com quem, depois de algum tempo, criei intimidade suficiente para trocar confidências. Foi em uma de nossas conversas de alvorecer que ele me disse morar no 24º andar do edifício JK e ser vizinho de um cara meio esquisito, conversador e que, ao que parecia, vivia do lenocínio. “Chama-se Pitoco”, me disse o Sinfrônio.
Fiquei sabendo, posteriormente, acumulando outras informações, que se tratava de fato do meu tio Pitoco. Talvez pelo desejo de estabelecer algum vínculo com a vida que eu tinha deixado para trás, aquela que eu optara por não viver, ou pelo inusitado de saber que o tio Pitoco havia se tornado rufião, fui movido a uma ligeira investigação, pela qual obtive informações mais detalhadas. Descobri que ele havia abandonado a mulher e os filhos e caído na vida. Não sei o motivo. Pelos meus cálculos, isso aconteceu mais de um ano depois da última vez que o vi. Como ele chegou ao convívio com as meretrizes, os larápios, os pequenos traficantes e trapaceiros sobre os quais Sinfrônio me falava, devo admitir que também não sei. Mas tomei ciência que ele está envolvido com a raia miúda. Também eventuais pequenos trambiques, vigarices e falcatruas em geral garantem o sustento dele e o aluguel das kitchenettes em que ele hospeda as garotas. Descobri que tio Pitoco costuma ficar peregrinando pelos bares da praça Raul Soares, onde arruma os clientes, os quais, depois de alguns telefonemas, encaminha para as kitchenettes. Resolvi encontrá-lo. Cheguei no JK no final da tarde, subi pelo elevador até o 20º andar. Não sabia o que falar com ele, qual seria sua reação, estava inseguro quanto ao encontro e por isso desci quatro andares abaixo do dele. Depois de percorrer os corredores do imponente e estranho edifício cheguei à porta do tio Pitoco. Toquei campainha e fui atendido por uma garota que, logo deduzi, era uma das suas. Perguntei pelo Pitoco e ela me disse que ele não estava. Hesitei defronte à porta, pensando que talvez fosse melhor abandonar a idéia de reencontrá-lo, que o melhor fosse simplesmente me virar e ir embora. Mas a garota perguntou se poderia ser útil em alguma coisa. Não precisei pensar muito para responder que sim. E ela foi, por módicos R$ 50.
Fiquei sabendo, posteriormente, acumulando outras informações, que se tratava de fato do meu tio Pitoco. Talvez pelo desejo de estabelecer algum vínculo com a vida que eu tinha deixado para trás, aquela que eu optara por não viver, ou pelo inusitado de saber que o tio Pitoco havia se tornado rufião, fui movido a uma ligeira investigação, pela qual obtive informações mais detalhadas. Descobri que ele havia abandonado a mulher e os filhos e caído na vida. Não sei o motivo. Pelos meus cálculos, isso aconteceu mais de um ano depois da última vez que o vi. Como ele chegou ao convívio com as meretrizes, os larápios, os pequenos traficantes e trapaceiros sobre os quais Sinfrônio me falava, devo admitir que também não sei. Mas tomei ciência que ele está envolvido com a raia miúda. Também eventuais pequenos trambiques, vigarices e falcatruas em geral garantem o sustento dele e o aluguel das kitchenettes em que ele hospeda as garotas. Descobri que tio Pitoco costuma ficar peregrinando pelos bares da praça Raul Soares, onde arruma os clientes, os quais, depois de alguns telefonemas, encaminha para as kitchenettes. Resolvi encontrá-lo. Cheguei no JK no final da tarde, subi pelo elevador até o 20º andar. Não sabia o que falar com ele, qual seria sua reação, estava inseguro quanto ao encontro e por isso desci quatro andares abaixo do dele. Depois de percorrer os corredores do imponente e estranho edifício cheguei à porta do tio Pitoco. Toquei campainha e fui atendido por uma garota que, logo deduzi, era uma das suas. Perguntei pelo Pitoco e ela me disse que ele não estava. Hesitei defronte à porta, pensando que talvez fosse melhor abandonar a idéia de reencontrá-lo, que o melhor fosse simplesmente me virar e ir embora. Mas a garota perguntou se poderia ser útil em alguma coisa. Não precisei pensar muito para responder que sim. E ela foi, por módicos R$ 50.
fila dupla
Onde: na rua Cecílio Matarazzo, próximo à esquina com avenida do Contorno, mais precisamente em frente ao restaurante Finíssimo. Sargento Washington: claro minha senhora, a gente vai resolver tudo. Madame Zuleika: o meu marido é dono de uma rede de panificadoras, tem muita influência na Assembléia Legislativa e é amigo do coronel Leônidas. Garoto Enxaqueca: minha senhora, eu não estou preocupado com a batida em si, mas com a civilidade, o crescimento descontrolado das cidades, as relações interpessoais, a desigualdade social, enfim, estou preocupado com as implicações de se parar em fila dupla numa rua em curva só porque a senhora dispõe de um manobrista, graças ao seu dinheiro, dinheiro que a senhora tem e eu não, que te permite vir a um restaurante chique, com manobrista, e parar em fila dupla. Manobrista: êpa, não me põe nessa história não. Madame Zuleika: o carro novo, meu marido me deu como presente de 25 anos de casamento, a gente tem seguro, mas eu não vou acionar, esse moleque aí é que vai ter que pagar tudo. Sargento Washington: eu já peguei os dados dele, agora preciso que a senhora me passe os seus. Madame Zuleika: Zuleika Feliciana von Praukner Ladeira, meu marido é amigo do coronel Leônidas, é dono de uma rede de panificadoras e tem muita influência na Assembléia Legislativa. Sargento Washington: minha senhora, os documentos do carro e a carteira de motorista, por favor. Garoto Enxaqueca: veja bem, não é proibido parar em fila dupla? Ela pára, eu bato na traseira do carro dela, mas ela está certa e eu estou errado! Ela parou em fila dupla, o que é proibido pela lei, mas parou porque tem o manobrista para tirar, é uma coisa que o dinheiro dela compra, então o dinheiro dela compra o que é certo e o que é errado, inclusive sob o ponto de vista da Lei? Madame Zuleika: está na cara que esse delinquentezinho fumou maconha! Seu guarda, o senhor deve prendê-lo imediatamente. Sargento Washington: não creio que seja necessário. Madame Zuleika: imediatamente, eu disse. Sargento Washington, sem paciência: vou precisar que vocês aguardem um pouco para assinar a ocorrência. Garoto Enxaqueca: suponha, caro Washington, a seguinte utopia, todo mundo rico, todo mundo com carro bacana, podendo parar na porta de restaurante grã-fino com manobrista, em fila dupla, o que será que ia acontecer? Parar em fila dupla ia deixar de ser proibido pela legislação de trânsito? Mas se estamos falando de um lugar e um tempo imaginário onde todo mundo ia ser rico e ter carro bacana, como é que iam ficar os outros ricos de carro bacana que estivessem transitando pelas ruas inevitavelmente mais estreitas e engarrafadas por causa das filas duplas, eles não iam se incomodar? E a Lei, ia ficar entre a cruz e a espada, hein!? Madame Zuleika: seu guarda, esse moleque está sofismando.
crônica de uma noite feliz
Ronnie Bustamante, vulgo Samantha Brick, e Bernardo Celidônio, a quem também chamam Shirley Ass, são duas drags queens que trabalham na boate Minotaurus. Certa feita, com as noites livres e os dividendos de um final de semana de muito trabalho no bolso, resolveram tomar ácido lisérgico e ir a um restaurante grã-fino. Montadas. No primeiro que tentaram entrar foram barradas. No segundo, com o argumento de que eram atores, famosos, apareciam nas revistas de TV e tinham feito uma ponta na novela, tudo mentira, conseguiram driblar a sisudez do engravatado na portaria e entraram risonhas, brilhantes, purpurinadas, falando alto, extravagantes e expansivas.
Pediram champanha, as entradas, o prato principal, mas declinaram da sobremesa porque, no fundo, no fundo, estavam se divertindo menos do que o esperado com o constrangimento e a mudez absoluta que tomou conta do lugar desde que haviam chegado. Dedo em riste apontando acintosamente para alguns respeitáveis e embolorados casais que, abandonando a comida pela metade, levantavam de suas mesas e saíam resmungando baixinho e balançando a cabeça em sinal de reprovação, Samantha e Shirley eram as únicas a quebrar o silêncio falando desmedidamente alto. Pagaram a conta deixando o troco e partiram jogando confete e serpentina. O rumo tomado foi o boteco do Sinfrônio, ali na praça da Estação, na cidade baixa, perto de onde moram. Chegaram lá fogosas como haviam saído do restaurante grã-fino. Algumas pessoas no recinto cumprimentaram as duas, outras continuaram fazendo o que estavam fazendo, sem se importar com a presença delas, e umas poucas demonstraram certo incômodo. Samantha e Shirley pediram cerveja e croquete, pensando nas rimas obscenas que o acepipe sugere.
Tocava Agnaldo Rayol na jukebox, a madrugava avançava em direção à manhã, uma pequena barata hesitava próximo à estufa e Sinfrônio conversava com seu amigo Pitoco, que bebia recostado ao balcão. Samantha e Shirley contavam piadas indecentes para um grupo de velhos conhecidos que gargalhavam à larga. Expansivas, extravagantes, purpurinadas, brilhantes, risonhas, falando alto e alucinadas, mas um tanto exauridas, saíram do bar, atravessaram a praça com seus chafarizes lusco-fusco da alvorada iminente e, deixando atrás de si um rastro de confete e serpentina, foram se entregar ao justo repouso.
Pediram champanha, as entradas, o prato principal, mas declinaram da sobremesa porque, no fundo, no fundo, estavam se divertindo menos do que o esperado com o constrangimento e a mudez absoluta que tomou conta do lugar desde que haviam chegado. Dedo em riste apontando acintosamente para alguns respeitáveis e embolorados casais que, abandonando a comida pela metade, levantavam de suas mesas e saíam resmungando baixinho e balançando a cabeça em sinal de reprovação, Samantha e Shirley eram as únicas a quebrar o silêncio falando desmedidamente alto. Pagaram a conta deixando o troco e partiram jogando confete e serpentina. O rumo tomado foi o boteco do Sinfrônio, ali na praça da Estação, na cidade baixa, perto de onde moram. Chegaram lá fogosas como haviam saído do restaurante grã-fino. Algumas pessoas no recinto cumprimentaram as duas, outras continuaram fazendo o que estavam fazendo, sem se importar com a presença delas, e umas poucas demonstraram certo incômodo. Samantha e Shirley pediram cerveja e croquete, pensando nas rimas obscenas que o acepipe sugere.
Tocava Agnaldo Rayol na jukebox, a madrugava avançava em direção à manhã, uma pequena barata hesitava próximo à estufa e Sinfrônio conversava com seu amigo Pitoco, que bebia recostado ao balcão. Samantha e Shirley contavam piadas indecentes para um grupo de velhos conhecidos que gargalhavam à larga. Expansivas, extravagantes, purpurinadas, brilhantes, risonhas, falando alto e alucinadas, mas um tanto exauridas, saíram do bar, atravessaram a praça com seus chafarizes lusco-fusco da alvorada iminente e, deixando atrás de si um rastro de confete e serpentina, foram se entregar ao justo repouso.
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