20.3.08

o dia que sucede a noite

O Garoto Enxaqueca não dorme. Ele ferve de calor e gira de um lado para o outro da cama e se recorda de quando passava as férias na casa da avó, nos cafundós do interior de Minas Gerais, onde a noite era fresca e havia os sapos, os grilos e eventualmente o barulho da chuva e assim, então, dormia-se em paz e sossegado. Mas não adianta, essas lembranças não trazem o sono. O Garoto Enxaqueca abre de leve os olhos: o quarto ainda está escuro. E quente. E com as coisas todas que habitam o quarto lá, em seus devidos lugares, na penumbra. Ele se vira para o lado da parede.A insônia que acomete o Garoto Enxaqueca é crônica. Há períodos em que ela se manifesta de maneira mais intensa. Como agora. Há quase uma semana ele vê a pequena noite de dentro de seu quarto escorrer lentamente até acabar e dar lugar ao dia que chega lá de fora. De olhos fechados, tentando ficar imóvel, forçando o pensamento em coisas que sirvam de acalanto, o Garoto Enxaqueca se pergunta se ainda é meia-noite ou se já serão quatro da madrugada. Abre os olhos novamente, sempre na quantidade necessária para apenas entrever os primeiros sinais da claridade que se insinua.Lembra daquela vez em que viajou para aquela praia no litoral do Ceará com um grupo de amigos para passar o reveillon. Durante o dia, caminhava-se por entre imponentes dunas que escorriam para a extensa praia levemente banhada pela maré baixa. O sol reluzia nas piscinas que se formavam na areia. Ao entardecer, a brisa refrescante trazia consigo a escuridão, maculada apenas pelas estrelas que a lua nova deixava aparecer. Vira para o outro lado. Enxuga o suor da testa com o lençol. Joga longe o lençol. Não adianta, o sono não vem.Agora o Garoto Enxaqueca fecha os olhos com força, ele não quer ver que o dia não tarda a clarear. Mas ele sabe, ele percebe, ele já está acostumado. Os galos começaram a cantar ao longe e o trinar dos passarinhos também já se faz ouvir ao redor. Em seguida são os cachorros que começam a latir e o barulho do trânsito que se intensifica. São os malditos avisos de que mais uma noite se foi e que daqui a pouco o Garoto Enxaqueca terá que se levantar da cama e ir para o trabalho. Se ele pudesse, matava todos os galos, os passarinhos, os cachorros e o trânsito. A idéia de que não tarda amanhecer aumenta a tensão, a necessidade de dormir é quase um desespero, o Garoto Enxaqueca sabe que a insônia está minando sua saúde e sua sanidade mental e é aí, nesse momento, que o sol desponta invadindo o quarto. A claridade soa como um decreto: já era, mais uma noite acordado, não há mais tempo para o sono. O Garoto Enxaqueca, então, se conforma. E dorme. Pesadamente, profundamente, mas só até que o despertador toque, cerca de apenas meia hora depois. Aí ele se levanta, vê sua cara corrompida no espelho do banheiro, escova os dentes e sai de casa.

mulheres de viagens

Lembrei por esses dias de uma garota que conheci há cerca de dez anos, em uma viagem de ônibus que fiz a Petrolina, em companhia de meu amigo Ibrahim. Viajávamos por conta de um trabalho — não vem ao caso dizer qual — que exigiria de nós uma estadia de pelo menos uma semana naquela região. Digo isso porque não ficaríamos apenas em Petrolina: teríamos que percorrer um bom trecho do sertão pernambucano para realizar o tal trabalho. Para tanto, alugamos um carro um dia após nossa chegada à cidade.À noite, fomos, eu e Ibrahim, tomar uma cerveja em um bar obscuro no entorno de uma singela e aconchegante praça. No dia seguinte, logo cedo, partiríamos com o carro alugado para percorrer um trecho que passava por Terra Nova, Parnamirim e Ouricuri. Foi nesse bar, cujo nome não me lembro, que conheci a tal garota. Salvo engano, se chamava Elisa. Ela em tudo destoava daquela cidade e de sua gente. Seus modos, sua roupa, seu jeito de falar, nada tinham a ver com o provincianismo simplório da população de Petrolina.Foi decerto Elisa a responsável por nossa aproximação. Começamos a conversar e não tardou muito para saber que era estudante, havia nascido naquela cidade, mas há muitos anos morava na metrópole de onde eu e Ibrahim acabávamos de chegar. Ela falou de lugares que costumava freqüentar e achei estranho já não termos nos conhecido em algum deles antes. Falamos da viagem que faríamos a partir do dia seguinte e Elisa sem hesitação disse que gostaria de ir junto, se não houvesse problema. Foi. Devo dizer que no bar ela já tinha me despertado interesse. Era muito bonita e inteligente e destrambelhada.Durante a pequena viagem, meu interesse só fez crescer. Talvez pelo fato de eu sempre ter sido consideravelmente tímido ou por ter faltado oportunidade adequada — coisa típica dos tímidos: ficar esperando a oportunidade adequada —, nada, além de conversas muito agradáveis, aconteceu durante todo o período em que estivemos circulando pelo sertão de Pernambuco. Aliás, aconteceu, mas foi entre Ibrahim e Elisa, no último dia de nosso périplo agreste, quando estávamos em Ibimiri, já no caminho de volta para Petrolina.Digo que me lembrei dela porque quando estive, semana passada, na kitchenette de Karina, uma garota de programa de quem, de tanto recorrer aos favores, me tornei amigo, encontrei lá uma moça muito parecida com Elisa. Não conversamos. Ela estava de saída e fiquei na dúvida se era ou não. Karina me disse que era sua amiga, que também vivia do meretrício e que se chamava Penélope — mas não tinha certeza, podia ser nome de guerra.