Ataliba não toma o café da manhã em casa, prefere fazê-lo na padaria da esquina, logo quando sai para o trabalho. Cumpre essa rotina desde que perdeu a mulher, vítima de um câncer fulminante, há oito anos. Não teve filhos, mora sozinho, não costuma sair muito, a não ser para o trabalho, a situação financeira é estável, o semblante, invariavelmente melancólico, gosta de café sem açúcar e pão com manteiga, queijo e ovo frito com gema dura. São coisas que Dalva sabe ou intui. Há cinco anos, desde que trabalha na padaria da esquina, ela serve o café da manhã de Ataliba e nutre por ele um sentimento que passou de simpatia a paixão muito rapidamente, logo nos primeiros contatos. Nunca teve coragem de se expressar, limita-se a atender, sempre com sorriso contido e brilho nos olhos, aquele senhor que, eventualmente, enquanto faz o desjejum, puxa assunto, faz perguntas, fala um pouco de sua própria vida e sequer desconfia que ela o ama desmedidamente.
Mãe solteira, 30 anos, moradora da Vila Nossa Senhora de Fátima, no Aglomerado da Serra, Dalva não sabe dizer para si mesma exatamente quando ou como ou porque se apaixonou por Ataliba. Obviamente que gostaria de ser correspondida, mas para ao menos pensar nessa hipótese teria que declarar seu amor, o que definitivamente não tem coragem de fazer. De qualquer maneira, o amistoso encontro cotidiano, que dura não mais que dez minutos, já é bastante para que Dalva acorde bem disposta às seis da manhã e vá trabalhar de bom grado, a despeito dos parcos trocados que recebe ao final do mês e da rispidez com que a trata a gerente, Magda, que chegou a tal condição depois de onze anos de sincera dedicação ao trabalho na padaria da esquina. Entrou como atendente, depois foi caixa, depois responsável pelo estoque, depois gerente.
Assim como Ataliba, Magda também mora sozinha e gosta de café sem açúcar, que faz em casa, antes de sair para trabalhar. Tem 41 anos, nunca se casou e nunca teve filhos, também sai pouco de casa e, talvez por esse motivo, praticamente não tem o que se possa chamar de uma vida social. Magda procura manter uma postura austera para com os funcionários da padaria e não hesita em impor sua autoridade. Se é particularmente exigente ou, vá lá, ríspida com Dalva, não é porque tenha qualquer tipo de implicância contra ela. Pelo contrário. O tratamento duro que dispensa à funcionária é, na verdade, uma defesa contra o amor, também desmedido, que sente por ela. Ataliba por falta de interesse, Dalva porque é semi-analfabeta, Magda porque gosta é de Sidney Sheldon, nenhum dos três nunca leu Drummond.
16.11.07
13.11.07
a ilha
Definitivamente a postura elegante, a candura no olhar, a pele alva, os cabelos bem tratados, o evidente acanhamento de quem se sente terrivelmente oprimida, os gestos contidos e etéreos, enfim, a figura angelical que Sílvia, sem sucesso, tentava camuflar destoava de maneira gritante do ambiente bruto, quase hostil, daquele botequim infecto plantado em plena praça da Estação, no centro baixo da cidade. Entre bêbados, larápios, prostitutas e rufiões que povoavam o lugar, ela, pequena numa mesa de canto, resplandecia contra a própria vontade. Quanto mais olhares atraía – e era inevitável que os atraísse – mais desconcertada ficava.
Mas o monumental desconforto que Sílvia aparentava por vezes se confundia com um outro tipo de inquietação, talvez ansiedade. Sílvia olhava o relógio de pulso freneticamente. Estaria ela esperando por alguém? O que poderia justificar a presença de uma mulher com aqueles ares e olhares frágeis naquele lugar que é só rudeza? Um encontro secreto? Um amor bandido, desses que só se pode cultivar na sombra? Parecia ser a hipótese mais plausível, mas também é possível que ela estivesse empenhada em algum tipo de investigação, pesquisa, um estudo antropológico quiçá. Mas não, nesse caso ela decerto estaria acompanhada, não se meteria a correr riscos sozinha.
Recostado no balcão, fumando o penúltimo Derby do maço e rabiscando um guardanapo, eu tecia lucubrações acerca das motivações de Sílvia. Fiquei, por um instante, tentado ao julgamento: tola ou destemida? Não importava. O fato curioso é que, a despeito da cobiça que pairava pesada no ar, ninguém parecia ter coragem de se aproximar dela. De alguma forma, Sílvia estava seguramente resguardada na redoma da própria inocência e fragilidade. Ela talvez não pensasse da mesma forma. Sua aflição, que era quase medo, quase tristeza, ganhava corpo.
Com evidente dificuldade, praticamente sem abrir a boca ou erguer o olhar, pediu outra garrafa de água mineral ao garçom que, saído do banheiro, esbarrou em sua mesa. Tomou apenas um copo antes de consultar o relógio mais uma vez, levantar-se e rumar até o caixa para pagar a conta, pela primeira vez na noite demonstrando desenvoltura e determinação. Ficou sobre a mesa um envelope, que julguei ser seu, mas tive a certeza que ela havia deixado para trás algo muito maior.
Mas o monumental desconforto que Sílvia aparentava por vezes se confundia com um outro tipo de inquietação, talvez ansiedade. Sílvia olhava o relógio de pulso freneticamente. Estaria ela esperando por alguém? O que poderia justificar a presença de uma mulher com aqueles ares e olhares frágeis naquele lugar que é só rudeza? Um encontro secreto? Um amor bandido, desses que só se pode cultivar na sombra? Parecia ser a hipótese mais plausível, mas também é possível que ela estivesse empenhada em algum tipo de investigação, pesquisa, um estudo antropológico quiçá. Mas não, nesse caso ela decerto estaria acompanhada, não se meteria a correr riscos sozinha.
Recostado no balcão, fumando o penúltimo Derby do maço e rabiscando um guardanapo, eu tecia lucubrações acerca das motivações de Sílvia. Fiquei, por um instante, tentado ao julgamento: tola ou destemida? Não importava. O fato curioso é que, a despeito da cobiça que pairava pesada no ar, ninguém parecia ter coragem de se aproximar dela. De alguma forma, Sílvia estava seguramente resguardada na redoma da própria inocência e fragilidade. Ela talvez não pensasse da mesma forma. Sua aflição, que era quase medo, quase tristeza, ganhava corpo.
Com evidente dificuldade, praticamente sem abrir a boca ou erguer o olhar, pediu outra garrafa de água mineral ao garçom que, saído do banheiro, esbarrou em sua mesa. Tomou apenas um copo antes de consultar o relógio mais uma vez, levantar-se e rumar até o caixa para pagar a conta, pela primeira vez na noite demonstrando desenvoltura e determinação. Ficou sobre a mesa um envelope, que julguei ser seu, mas tive a certeza que ela havia deixado para trás algo muito maior.
12.11.07
criança de domingo
CRIANÇA DE DOMINGO
Recordo, não sem um certo travo de remorso, que naquele dia despertei particularmente mal-humorado, talvez porque o doberman do vizinho latisse ou porque a noite fora povoada de pesadelos ou talvez simplesmente porque os domingos me deprimiam. Se bem que, até onde me lembro, acordar de “ovo virado”, como tia Euzébia gostava de falar, me era habitual. Eu estava com 12 anos, tinha chegado à capital havia três, para estudar, e morava com ela no bairro Sagrada Família, em uma vila onde também habitavam, em barracos distintos mas com um pátio interno em comum, a tia Eulália, solteira como Euzébia, e o tio Pitoco (nunca soube o verdadeiro nome dele), sua mulher e dois primos insuportáveis, ambos mais velhos do que eu.
Todos gostavam muito de mim, faziam o possível para que eu me sentisse em casa, acolhido, até mesmo os primos. Eu é que não gostava deles. Pois bem, como soia acontecer nas manhãs dominicais, fomos todos à missa, na Igreja de São Judas Tadeu, o que ao longo dos três últimos anos eu fizera contrariado. Não gostava de ter que me sentar e me levantar conforme pedisse o padre. Também achava triste o fato de ninguém nunca, em nenhuma missa a que eu tivesse ido, ter se oposto ao pedido. Imaginava alguém calmamente dizendo: “olha, seu padre, o senhor não leva a mal não, mas agora eu prefiro ficar de pé mesmo”. E completar com um: “e tem mais, discordo de tudo o que o senhor está falando”.
Naquele dia eu parecia ver com mais clareza e de modo amplificado o trivial apático das gentes. As pessoas tinham cor cinza. Não só as que repetiam amém pela manhã, mas também as que, à tarde, comiam pipoca, faziam piquenique, jogavam bola e se divertiam vendo os melancólicos animais do Jardim Zoológico, onde havíamos, digo, eles haviam, os meus parentes, com meu consentimento mudo, combinado de passear. Tudo me parecia maquiagem, mesmo a euforia barulhenta de meninos e meninas mais novos do que eu, que corriam a frente de seus pais de um lado para o outro apontando o macaquinho, o hipopótamo, o leão. Tudo cinza, os bichos, a grama, as pessoas, o céu. Recordo claramente a sensação de opacidade e também o aperto que senti no peito quando diminui o passo, deixando que tia Euzébia, tia Eulália, tio Pitoco, a mulher e os primos caminhassem entretidos mais à frente. Foi nesse domingo, em agosto de 1984, que desapareci para sempre.
Recordo, não sem um certo travo de remorso, que naquele dia despertei particularmente mal-humorado, talvez porque o doberman do vizinho latisse ou porque a noite fora povoada de pesadelos ou talvez simplesmente porque os domingos me deprimiam. Se bem que, até onde me lembro, acordar de “ovo virado”, como tia Euzébia gostava de falar, me era habitual. Eu estava com 12 anos, tinha chegado à capital havia três, para estudar, e morava com ela no bairro Sagrada Família, em uma vila onde também habitavam, em barracos distintos mas com um pátio interno em comum, a tia Eulália, solteira como Euzébia, e o tio Pitoco (nunca soube o verdadeiro nome dele), sua mulher e dois primos insuportáveis, ambos mais velhos do que eu.
Todos gostavam muito de mim, faziam o possível para que eu me sentisse em casa, acolhido, até mesmo os primos. Eu é que não gostava deles. Pois bem, como soia acontecer nas manhãs dominicais, fomos todos à missa, na Igreja de São Judas Tadeu, o que ao longo dos três últimos anos eu fizera contrariado. Não gostava de ter que me sentar e me levantar conforme pedisse o padre. Também achava triste o fato de ninguém nunca, em nenhuma missa a que eu tivesse ido, ter se oposto ao pedido. Imaginava alguém calmamente dizendo: “olha, seu padre, o senhor não leva a mal não, mas agora eu prefiro ficar de pé mesmo”. E completar com um: “e tem mais, discordo de tudo o que o senhor está falando”.
Naquele dia eu parecia ver com mais clareza e de modo amplificado o trivial apático das gentes. As pessoas tinham cor cinza. Não só as que repetiam amém pela manhã, mas também as que, à tarde, comiam pipoca, faziam piquenique, jogavam bola e se divertiam vendo os melancólicos animais do Jardim Zoológico, onde havíamos, digo, eles haviam, os meus parentes, com meu consentimento mudo, combinado de passear. Tudo me parecia maquiagem, mesmo a euforia barulhenta de meninos e meninas mais novos do que eu, que corriam a frente de seus pais de um lado para o outro apontando o macaquinho, o hipopótamo, o leão. Tudo cinza, os bichos, a grama, as pessoas, o céu. Recordo claramente a sensação de opacidade e também o aperto que senti no peito quando diminui o passo, deixando que tia Euzébia, tia Eulália, tio Pitoco, a mulher e os primos caminhassem entretidos mais à frente. Foi nesse domingo, em agosto de 1984, que desapareci para sempre.
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